quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sobre Valsinha, Chico Buarque e Mônica Salmaso... Ou... Da canção que salvou o dia - Cado Selbach



Hoje vivi uma experiência bastante simples mas amplamente reveladora de certos aspectos de minha personalidade e dos mais sinceros valores que trago comigo. Na verdade, é uma experiência subjetiva, que provavelmente no produza nenhum impacto sobre a maioria das pessoas. Trata-se de uma dessas ocasiões em que uma canção transforma um dia, expondo diante de nós uma aquarela de possibilidades para nos desenredarmos da toxicidade de nossos pensamentos viciosos.

Estava eu procurando alienar-me do mundo lá fora e seus sons ofensivamente urbanos, ouvindo uma playlist de canções especiais (dessas que podem transformar um dia...). E eis que escuto os primeiros acordes de "Valsinha" de autoria de Chico Buarque. No caso em específico, trata-se de uma sensível e previsivelmente impecável interpretação de Mônica Salmaso.

Fecho os olhos e me entrego à experiência de visualizar cada cena, na intenção de tornar a música uma tela de imagens em movimento, na qual desejava poder mergulhar. E é então que a escuto cantar sobre a resolução de um homem em imprimir lirismo ao seu cotidiano, pincelando seu dia com novas matizes. Dentre outras ações e intenções, opta por, neste dia, não maldizer a vida como costumeiramente fazia. E então conduz a mulher que o esperava no fim de tarde (é este, para mim, o tempo da circunstância relatada na música) até uma praça e a convida pra dançar. Subitamente. Enterneço-me já neste primeiro ato e danço ao redor deles como para mimetizar-me a esta atmosfera de delicadeza e poesia. a dança, cheia de sacralidade, desperta toda a vizinhança e a cidade se ilumina. Neste momento já estou submerso; transposto a um mundo paralelo onde podemos optar sempre que nos propusermos a isto pela quebra do ritmo alucinante em que vivemos e pela entrega despretensiosa ao que temos de melhor em nós: nossa capacidade de amar e organizar as próprias ações em torno deste amor. Vejo-me num "tempo-espaço", onde o amor se revela como força propulsora de um ato simultaneamente libertário e inusitado; de um outro jeito de nos movimentarmos frente aos nossos sentimentos e às coisas pelas quais nos sentimos verdadeiramente afetados. Pude sentir a textura e o gosto dos beijos loucos no qual resultou o clima protagonizado pelos dançarinos e uma parte de mim... silenciosa... entendeu exatamente o teor dos gritos roucos "como não se ouvia mais" e compartilhou o êxtase dos amantes.

E mesmo com a noite avançando, as imagens continuam passando em minha mente como um desses filmes antigos em que o amor é tratado sem o tom blasé de grande parte das produções contemporâneas.

Fui ternamente embalado por esta canção hoje à tarde. Agradeço ao Chico que, parafraseando Cássia Eller no seu cd "acústico MTV" é meu verdadeiro Pai. E à garganta esplandecida de Mônica Salmaso, que certamente também se deixou conduzir por sensações inadjetiváveis pra interpretar essa música capturando e imprimindo o tom onírico em que ela acontece.

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