quarta-feira, 6 de julho de 2011

Para Ismália - de Cado Selbach


PARA ISMÁLIA

O louco da rua onde moro declama poemas de Pessoa
E conta histórias de viagens em navios imaginários
E quando a cidade dorme faz serenata pros mortos
E Pra mãe que o deixara sem qualquer itinerário

Pela vida tão difícil de sua mãe de vida fácil
Fora entregue a qualquer gente que de amar não entendia
De seu pai nunca soubera nem o nome ou paradeiro
Mas jurava ser herói nos seus sonhos que luziam

Não falava de maus-tratos ou do homem que o tocara
Preferia olhar pra lua e as figuras que lá via
Com seus olhos quase cegos de poeira e abandono
E a alma interiorana e tão pura que trazia

E depois que enlouquecera por escolha mais que fado
Dera pra ler poesia em velhos livros que encontrara
Que dizia serem suas em delírios de grandeza
Da grandeza de sua alma... que a vida lhe roubara

Hoje irá subir na torre junto ao sino à meia noite
Pois soubera de Ismália em suas últimas leituras
E pensara em encontrá-la com suas asas de anjo torto
E em afronta a Guimaraes emprestar-lhe asas seguras

Morrerá em voo cego e coração de passarinho
Com seu jeito de menino que jamais ganhara colo
E agora em poesia encontrara sua princesa
Que brilhará em seus olhos logo que chegar ao solo.

(Cado Selbach)

3 comentários:

Angela disse...

Lindíssimo, Cado.
Não deixa nada devendo para a outra Ismália.
Já sou seguidora do teu blog.

Mara De Martine disse...

Nossa!!!!!Você consegue transformar duras verdades em delicada poesia....
Difícil não se deixar envolver....bjs!!!!

Biapedag disse...

Ricardo, deixa eu te falar uma coisa:tens um carinho imenso por nossa escola e pelas pessoas que contigo conviveram. Também nós, da escola, ficamos honradas com tua presença e teu carinho. Poder te ouvir, contigo refletir sobre nossa prática e nossa vida é TUDO DE BOM MESMO!!! Tua presença foi um belo presente a todo grupo. Gostamos muito de ti.